Minha querida (in)disciplina

Este texto não é meu, mas eu acho que é para mim...

 

O que nos vem à cabeça quando pensamos em disciplina? Será que pensamos em sacrifício, em limitação, em chatice? Ou pelo contrário, pensamos em liberdade e em amor?

Tendemos a pensar na disciplina como uma coisa antiquada que tira o gozo da vida. Que elimina a espontaneidade e a naturalidade de fazer as coisas como gostamos. Mas será que a disciplina pode ser uma libertação? Pode ser um um caminho para o amor?

 

Nascemos dotados de um coração maravilhoso, mas cheio de volatilidades. Tanto temos rasgos de inspiração que nos aproximam do que queremos, como ao mesmo tempo temos distracções que nos empatam. Ora o que a disciplina faz é libertar desta volatilidade. Ela faz-nos chegar onde queremos, sem nos perdermos no que não queremos. A disciplina desperta uma espontaneidade orientada e consistente, não ficando apenas por alguns laivos de entusiasmo.

 

Contudo, continuamos a agir com uma certa ingenuidade, porque achamos que podemos sempre confiar em nós. Quando na realidade não podemos.

Se por exemplo decidimos ir fazer exercício todos os dias de manhã, não seria inteligente deixar que o eu das 7 da manhã – sonolento, com remelas e envolto em lençóis – faça o que lhe apetece. Ele tem que se levantar e ir correr. Ele não pode decidir.

Quem decide é o eu da véspera, bem acordado e livre.

 

A disciplina não funciona em vaipes. Funciona ao ser constante nas coisas em que queremos ser constantes. Funciona quando somos capazes de adiar a gratificação. Quando somos guardiões de nós mesmos.

 

Acontece que ela é especialmente necessária, porque qualquer coisa que queiramos da vida – quer seja ter um bom trabalho, dar a volta ao mundo, ter uma relação feliz, viver uma vida saudável – vai exigir uma dose tremenda de disciplina.

 

Gostar de um bebé fofo é natural. Agora acordar todas as noites quando o fedelho está a chorar…

Trabalhar quando estamos inspirados é óptimo. Agora estar ali a malhar mesmo quando não apetece…

Ter um rasgo de altruísmo acontece. Agora ser generoso diariamente com quem queremos…

 

Contudo, para a disciplina acontecer, ela tem que ser querida.

Querida, porque tem que ser amável e carinhosa.

Não dá para impor regras estóicas à nossa vida e depois esperar que por milagre vamos cumprindo o que definimos. Temos que nos ir educando gradualmente, com miminhos e humor. Com pequenas rotinas, hábitos subtis e pormenores de fidelidade.

 

Querida, porque tem que se querer.

Tem que ser algo que se escolhe. Que decidimos livremente fazer. Se for uma imposição exterior, torna-se limitadora e aborrecida. Se for uma escolha livre, uma adesão a um objectivo maior de vida, então aí abre um caminho para a liberdade.

 

Curiosamente só é capaz da disciplina quem tem amor próprio. Porque a disciplina é um acto de amor. É ser capaz de sacrificar o egoísmo para servir alguma coisa melhor. Sem disciplina, fica-se apenas pelos sentimentos e intenções. A disciplina concretiza em milhares de pequenas acções o amor que procuramos e o amor que desejamos.

 

Ao viver assim a disciplina – dia a dia, mês a mês, ano a ano – acabamos por tornar natural o que ao início não o era. O que era uma limitação torna-se uma oportunidade. O que era um sacrifício, torna-se uma libertação. O que era uma coisa chata… bem, o que era uma coisa chata, torna-se uma coisa querida. Muito querida.

 

Texto retirado do site www.inesperado.org

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